sábado, 4 de setembro de 2010

Para que Escuridão quando há uma vela no seu Coração?


A minha solidão fica bem melhor com um vinho tinto. Um pouco menos impávido, relaxado, com as defesas baixas, nós podemos olhar para dentro da fortaleza que montamos ao redor do nosso ego e vemos aquelas incontestáveis rachaduras. Pequenos definhamentos que aconteceram ao longo do tempo e que escondemos com uma postura de inquebrantáveis a fim de nos protegermos do grande baque - há, fundamentalmente, aquela força que tenta nos arrastar para baixo. Não sei se só os solitários como eu sentem isso, ela colidindo como maré. Forte, leve, de todos os lados, tirando o ar. Às vezes como um pensamento ruim passageiro. Sempre inconstante na potência mas invariavelmente uma presença certa que espera o momento mais inevitável e inoportuno para assolar um coração. Mas por quê?
Porque estamos vivos.
Dividindo águas, permita-me dizer o seguinte: sabe quando Cazuza falou que o tempo não pára? Ele não estava tão certo assim. Para algumas pessoas, ele para de correr. Você se lembra de como algumas pessoas que experimentam tragédias muito fortes passam a se comportar depois? Em algumas famílias que tem o mínimo de sacramento pelas boas lembranças e revelam os momentos legais em fotos cultivando esse prazeroso hábito de fazer álbuns (verdadeiros, não virtuais) de fotografias, é fácil perceber através das recordações como o rosto empalideceu ou as roupas se tornaram mais soturnas. Um momento que antes passaria a ser agradável inspira poucos dentes para um "X". O que aconteceu com o sorriso que deveria ter sido guardado? 
Nosso ideal de felicidade é cultivado num delicado ecossistema de pessoas, lugares, hábitos e costumes. E, às vezes, a mera modificação por um elemento alienígena que chega veloz como o carro que descarrila a 100km/h ou uma doença terminal faz com que aquele jardim em que estávamos cultivando coisas boas murche, devastando uma espécie de juventude e graciosidade tão freqüentes em alguém que parece não conhecer dor, medo ou separação.
Quando o relógio da vida pára, parece que some um pouco da luz dos olhos, do rosto, do jeito. Os dias são quase todos os mesmos... As conversas durante as refeições (elas ainda ocorrem?) são tão iguais e desinteressantes. Há, em suma, uma vasta distância que esse silêncio emocional vai criando a cada dia, abrindo um abismo que soterrará um dia a família, acabando de vez com "a força", aquela constante força, na sua última estocada.
Então porque não tomar um bom vinho tinto na louca dessas horas? Parece que tem um quê do vinho que é simples e forte o suficiente para intoxicar, embriagar e anestesiar ao mesmo tempo, fazendo com que o armagedom fique agradável na varanda. E se o copo secar, encha-o de novo. Beba uma terceira, quarta, quinta vez. Seque a garrafa. Lamba o gargalo. E assim tão cheio de idéias que só brotam na mente mais alucinada e com a coragem que só o bebum mais legítimo sente, em meio algumas lágrimas, talvez - eu às vezes fico um pouco emotivo com vinho -, pense que depois de muita pancada, de terem jogado o pior em cima de você, perceba - ainda! não! te derrubaram!.
Eu sei que parece piegas não querer contar os pontos e que a religião oferece muito mais atrativos em longo prazo do outro lado. Mas, apesar de não ser algo pra se gabar, o fato de que muita maldade tenha recaído sobre você sem lhe desmontar completamente mostra um lado da moeda que rivaliza com a fragilidade do ser humano. Somos tão fortes e tão poderosos quanto queremos achar que somos. E adquirimos nossa imortalidade não pelo o que de fato fazemos mas como mudamos as vidas das pessoas que mais amamos. De fato, aquela pessoa que se foi morreu como qualquer outra pessoa morreria se fosse vítima da mesma catástrofe, mas nenhuma outra, a não ser alguém tão especial, teria a capacidade de deixar um buraco tão grande no peito do outro. E porque projetamos sem perceber uma imagem de nós mesmos que vai se tornando preciosa para alguém, vamos adquirindo um valor que pode ser continuado em vida como uma espécie de tributo.
Diga-me, se vale a pena mesmo morrer por amor, será que não vale a pena viver também? Eu acho que não há prova mais linda.
Porque a verdadeira vida não existe sem coragem. Faça uma coisa que te deixa amedrontado todo santo dia! Seja em um determinado momento do dia não-você. Haja alguns momentos fora dessa pele e tente enxergar o mundo pelos olhos de alguém que pensa e age diferente. Mesmo que nada disso venha realmente a significar muito, talvez não nesse momento, saiba que é muito mais difícil tomar a atitude certa por um motivo: porque o peso das suas decisões afetam incontestavelmente o seu valor pessoal, as pessoas ao seu redor e implicam numa espécie de satisfação que contra baque nenhum será capaz de lhe desestruturar! Consciência, é disso que eu estou falando. Aquilo que faz algumas pessoas dormirem bem.
E se esse tipo de coragem serve de titânio na veia do valente, é daí que vai surgir o suficiente para uma emersão de vida que, sejamos realistas, nunca vai recuperar as coisas do jeito como elas foram antigamente. Mas vai permitir, e eu acredito nessa espécie de altruísmo (não porque sou um sonhador ou um idealista mas porque há um quê de solidário que deveria existir em todos nós, uma boa solidariedade), senão para nós, na criação da felicidade de uma outra pessoa.
Pode não parecer bom a princípio mas com algumas pessoas, alguns líderes que eu invejo e me inspiro, com amigos muito próximos do meu círculo íntimo de amizades, com todos eles, eu pude aprender que a verdadeira felicidade, mesma a dos outros, pode ser compreendida por nós e até mesmo assimilada: se deixarmos, se quisermos e se tentarmos.
Um sorriso passageiro é bem melhor que nenhum. E sabendo que a dor vai sempre estar lá e nunca irá passar definitivamente (raios, como ela e as saudades afloram nessas festas de final de ano), eu só posso juntar coragem para dizer e gritar bem forte que eu continuo vivendo! E lutando! Porque a luta contra "a força", que vamos chamar de desilusão, desânimo, todos os sentimentos de pólo negativo numa coisa só, não cessa nunca...nunca. Mas porque há escuridão tentando tomar o seu coração, há também uma luz querendo queimar ainda mais forte.
Viva desesperadamente e imundamente intenso, apaixonado por tudo que os outros fizeram para permitir você viver.
Viva por você.
E finalmente, dê vida nova aos solitários e ao mundo com a mensagem de força que emana de você. Existem outros corações precisando serem curados.
Como eu estou morrendo de saudades de você, mamãe...
De um filho que nunca parou de se encantar com as valsas e os rocks que dançou, sem cuidado, com uma mulher muito sorridente.
Fernando Simões