sábado, 4 de setembro de 2010

Para que Escuridão quando há uma vela no seu Coração?


A minha solidão fica bem melhor com um vinho tinto. Um pouco menos impávido, relaxado, com as defesas baixas, nós podemos olhar para dentro da fortaleza que montamos ao redor do nosso ego e vemos aquelas incontestáveis rachaduras. Pequenos definhamentos que aconteceram ao longo do tempo e que escondemos com uma postura de inquebrantáveis a fim de nos protegermos do grande baque - há, fundamentalmente, aquela força que tenta nos arrastar para baixo. Não sei se só os solitários como eu sentem isso, ela colidindo como maré. Forte, leve, de todos os lados, tirando o ar. Às vezes como um pensamento ruim passageiro. Sempre inconstante na potência mas invariavelmente uma presença certa que espera o momento mais inevitável e inoportuno para assolar um coração. Mas por quê?
Porque estamos vivos.
Dividindo águas, permita-me dizer o seguinte: sabe quando Cazuza falou que o tempo não pára? Ele não estava tão certo assim. Para algumas pessoas, ele para de correr. Você se lembra de como algumas pessoas que experimentam tragédias muito fortes passam a se comportar depois? Em algumas famílias que tem o mínimo de sacramento pelas boas lembranças e revelam os momentos legais em fotos cultivando esse prazeroso hábito de fazer álbuns (verdadeiros, não virtuais) de fotografias, é fácil perceber através das recordações como o rosto empalideceu ou as roupas se tornaram mais soturnas. Um momento que antes passaria a ser agradável inspira poucos dentes para um "X". O que aconteceu com o sorriso que deveria ter sido guardado? 
Nosso ideal de felicidade é cultivado num delicado ecossistema de pessoas, lugares, hábitos e costumes. E, às vezes, a mera modificação por um elemento alienígena que chega veloz como o carro que descarrila a 100km/h ou uma doença terminal faz com que aquele jardim em que estávamos cultivando coisas boas murche, devastando uma espécie de juventude e graciosidade tão freqüentes em alguém que parece não conhecer dor, medo ou separação.
Quando o relógio da vida pára, parece que some um pouco da luz dos olhos, do rosto, do jeito. Os dias são quase todos os mesmos... As conversas durante as refeições (elas ainda ocorrem?) são tão iguais e desinteressantes. Há, em suma, uma vasta distância que esse silêncio emocional vai criando a cada dia, abrindo um abismo que soterrará um dia a família, acabando de vez com "a força", aquela constante força, na sua última estocada.
Então porque não tomar um bom vinho tinto na louca dessas horas? Parece que tem um quê do vinho que é simples e forte o suficiente para intoxicar, embriagar e anestesiar ao mesmo tempo, fazendo com que o armagedom fique agradável na varanda. E se o copo secar, encha-o de novo. Beba uma terceira, quarta, quinta vez. Seque a garrafa. Lamba o gargalo. E assim tão cheio de idéias que só brotam na mente mais alucinada e com a coragem que só o bebum mais legítimo sente, em meio algumas lágrimas, talvez - eu às vezes fico um pouco emotivo com vinho -, pense que depois de muita pancada, de terem jogado o pior em cima de você, perceba - ainda! não! te derrubaram!.
Eu sei que parece piegas não querer contar os pontos e que a religião oferece muito mais atrativos em longo prazo do outro lado. Mas, apesar de não ser algo pra se gabar, o fato de que muita maldade tenha recaído sobre você sem lhe desmontar completamente mostra um lado da moeda que rivaliza com a fragilidade do ser humano. Somos tão fortes e tão poderosos quanto queremos achar que somos. E adquirimos nossa imortalidade não pelo o que de fato fazemos mas como mudamos as vidas das pessoas que mais amamos. De fato, aquela pessoa que se foi morreu como qualquer outra pessoa morreria se fosse vítima da mesma catástrofe, mas nenhuma outra, a não ser alguém tão especial, teria a capacidade de deixar um buraco tão grande no peito do outro. E porque projetamos sem perceber uma imagem de nós mesmos que vai se tornando preciosa para alguém, vamos adquirindo um valor que pode ser continuado em vida como uma espécie de tributo.
Diga-me, se vale a pena mesmo morrer por amor, será que não vale a pena viver também? Eu acho que não há prova mais linda.
Porque a verdadeira vida não existe sem coragem. Faça uma coisa que te deixa amedrontado todo santo dia! Seja em um determinado momento do dia não-você. Haja alguns momentos fora dessa pele e tente enxergar o mundo pelos olhos de alguém que pensa e age diferente. Mesmo que nada disso venha realmente a significar muito, talvez não nesse momento, saiba que é muito mais difícil tomar a atitude certa por um motivo: porque o peso das suas decisões afetam incontestavelmente o seu valor pessoal, as pessoas ao seu redor e implicam numa espécie de satisfação que contra baque nenhum será capaz de lhe desestruturar! Consciência, é disso que eu estou falando. Aquilo que faz algumas pessoas dormirem bem.
E se esse tipo de coragem serve de titânio na veia do valente, é daí que vai surgir o suficiente para uma emersão de vida que, sejamos realistas, nunca vai recuperar as coisas do jeito como elas foram antigamente. Mas vai permitir, e eu acredito nessa espécie de altruísmo (não porque sou um sonhador ou um idealista mas porque há um quê de solidário que deveria existir em todos nós, uma boa solidariedade), senão para nós, na criação da felicidade de uma outra pessoa.
Pode não parecer bom a princípio mas com algumas pessoas, alguns líderes que eu invejo e me inspiro, com amigos muito próximos do meu círculo íntimo de amizades, com todos eles, eu pude aprender que a verdadeira felicidade, mesma a dos outros, pode ser compreendida por nós e até mesmo assimilada: se deixarmos, se quisermos e se tentarmos.
Um sorriso passageiro é bem melhor que nenhum. E sabendo que a dor vai sempre estar lá e nunca irá passar definitivamente (raios, como ela e as saudades afloram nessas festas de final de ano), eu só posso juntar coragem para dizer e gritar bem forte que eu continuo vivendo! E lutando! Porque a luta contra "a força", que vamos chamar de desilusão, desânimo, todos os sentimentos de pólo negativo numa coisa só, não cessa nunca...nunca. Mas porque há escuridão tentando tomar o seu coração, há também uma luz querendo queimar ainda mais forte.
Viva desesperadamente e imundamente intenso, apaixonado por tudo que os outros fizeram para permitir você viver.
Viva por você.
E finalmente, dê vida nova aos solitários e ao mundo com a mensagem de força que emana de você. Existem outros corações precisando serem curados.
Como eu estou morrendo de saudades de você, mamãe...
De um filho que nunca parou de se encantar com as valsas e os rocks que dançou, sem cuidado, com uma mulher muito sorridente.
Fernando Simões

sábado, 28 de agosto de 2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Poesia de Intervalo

Se eu maldissesse todo o azar da minha vida
que justiça seria essa com as minhas mais queridas lembranças?
Cada ramo dessa flor que é tristeza
amassada, vira erva,
que tempera a prosperança.
Quão gostosa é a fatia
a quem reparte irrelevância.

sábado, 24 de julho de 2010

Presságios

“(...) São esses cartões, os filmes e as músicas pop. São os culpados por todas essas mentiras. E os desgostos. Somos responsáveis. Eu sou responsável. Nós fazemos uma coisa ruim. As pessoas deveriam poder dizer como se sentem. Como realmente se sentem, não... umas palavras que um estranho coloca na boca delas. Palavras como amor... Isso não significa nada”.
–Tom, protagonista do filme “500 days of Summer”.

Ninguém deveria comprar briga sem pelo menos ter um bom palpite. “Quais são as minhas chances?”. Mas se tudo fosse uma questão de bom senso, não haveria conflito, diálogo, um desafio vibrante, e por fim, o amadurecimento. O grande lance da doutrina oriental da paz espiritual é a questão do equilíbrio de energias negativas e positivas sem a sobreposição de nenhuma. O fato de muitas vezes o nosso coração parecer estar no olho de um furacão é apenas aquela velha problemática de querer achar razão naquilo que não explica. E ao invés de tomar a dura e bondosa decisão da aceitação, desistimos de superar um Everest pessoal e descobrir como se sente alguém no topo do mundo.
Mesmo sabendo que a Ciência condena a identificação de um ser pelos seus efeitos, alguns poetas tentaram explicar o amor e nem por isso são menos doutores que alguns cardiologistas, só menos renomados (sim, há controvérsias). E se eu fosse buscar referências em Ph.D.´s, Vinícius de Moraes lecionaria muito pontuadamente que todo grande amor só é bem grande se for triste. E dar um passo em direção ao prazer é andar um sofrer, sem distinções. –Talvez, para algumas bandas, este último seja só o que exista, mas eu não dou muito valor pra homem que se maquia.
Está certo: Existem limites ao comportamento. Estar em um relacionamento em que prevalece o interesse e o respeito mútuo carece primeiramente de ter paciência e saber ouvir. Nunca deixar de ouvir, principalmente no casamento, já que, como diz o mestre Veríssimo certeiramente: “O casamento é uma relação entre duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido...”.
O que eu quero dizer é que o sentimento de solidão, que brota mesmo dentro de um relacionamento não é algum defeito interno ou algum indício de inaptidão, mas antes de tudo um sinal de que tem algo certo com nós mesmos e errado com a identidade de uma pessoa que nós construímos. Que sendo assim, o próximo passo, o mais óbvio, é começar do zero, não se afastando dessa premissa simples de ser você mesmo pra, com sorte, conseguir aquele tão sonhado amor imperfeito: -ser uma daquelas duas pessoas cheias de defeitos, aqueles gostos e insuportáveis defeitos, vivendo felizes ao se estragarem ao incorporar coisas um do outro.
Para ser simples, toda história infeliz ainda não acabou. E ainda que as chances estejam contra você, lembre do chavão que um maloqueiro em “Cidade de Deus” citou de um filósofo grego: “Não sei de nada”. Rs, é por não sabermos que é comum ignorarmos os desfechos emocionantes que se anunciam por um “oi” no ônibus, um torpedo ou um mero e-mail.
Acredite: Flores sempre são um bom presságio.

“(...)assim como o oceano só é belo com luar,
assim com a canção só tem razão cê se cantar,
assim como uma nuvem só acontece se chove,
assim como poeta só é grande se sofre(...)”
- Toquinho, Eu não Existo Sem você.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Juízo

Rio de Janeiro, sexta-feira, 31 de dezembro de 1999.

A temperatura no apartamento de Beth é de 32 graus. Beth fecha a mala, desliga a geladeira, põe água na planta, apaga a luz e abre a porta. Ela está atrasada para pegar o ônibus. Beth ainda não sabe que o telefone vai tocar. O telefone toca.

- Cacete!

Beth olha o relógio. O telefone toca. Ela larga a mala no chão, acende a luz, o telefone toca, ela deixa a porta aberta, com a chave na porta, atende ao telefone.

- Josimar? (...) Sou eu, Josimar, eu não tenho secretária eletrônica. (...) Eu sei. O que foi? (...) Eu estou saindo, não saí ainda. O que foi, Josimar?

Beth vê o livro Sequestrados de Altona, do Sartre, sobre a mesa, ao lado do computador. Pega o livro e põe no bolso.

- E você não salvou no disquete? (...) Tem, tem jeito sim, o computador pode ter salvo (...) É, é brabo. (...) Josimar, faltam duas horas para acabar o milênio e você quer que eu lhe ensine, por telefone, a mexer no computador? (...) A responsabilidade é sua, Josimar. Você assumiu, agora a responsabilidade é sua. (...) Josimar, eu não posso ser responsável pelos atos de toda a humanidade. A responsabilidade é sua. (...) Tá, Josimar, tá bom. Que saco!

Beth senta, liga o computador.

- Você ganha o mesmo que eu e entrou não faz nem um mês. Se eu perder o ônibus por sua causa e passar o ano-novo na rodoviária eu te mato! Você está na frente do computador? (...) Bom, no canto esquerdo, embaixo, tem uma cruzinha, perto do iniciar. Clique duas vezes com o botão direito do mouse na cruzinha. Vai aparecer uma ampulheta, aquela coisinha que mede o tempo, com areia dentro. Sabe como é? Um desenho de uma ampulheta. (...) Você não está na frente do computador? (...) Você está vendo a cruzinha no canto esquerdo? (...) Josimar, liga o computador.

Beth, na rua, mala na mão, procura um táxi. Fogos de artifício explodem no céu. Um relógio de rua marca 11:43, mas na verdade sã onze e quarenta e cinco, o relógio está atrasado. Ela gesticula e grita para um táxi que passa, sem parar. Ela vê outro táxi se aproximando no sentido contrário da rua. Beth atravessa a rua correndo, quase na frente de um ônibus. Outro ônibus buzina e pisca luz alta para ela. Ela se vira e vê o ônibus se aproximar. O ônibus freia e buzina. Beth grita. Fogos de artifício explodem no céu refletido no vidro do ônibus. Destino: Juiz de Fora. Beth é atropelada e morre.

Beth está estatelada no chão. Abre os olhos. Fogos de artifício emolduram um grupo de pessoas em círculo, romanos, monges budistas, um índio. Surge um anjo. O anjo examina o rosto de Beth e pergunta:

- A senhora é uma galinha?

- Não.

O anjo confere uma ficha.

- Uma ameba?

- Não.

- Não vai dizer que a senhora é uma pessoa humana?

- Sou.

- Então vamos logo! Venha comigo.

Beth se levanta, segue o anjo por um grande corredor. Ela examina as mãos. Abre a bolsa, pega um espelho.

- Mas o que aconteceu que eu estou tão pálida?

- A senhora morreu.

- Eu morri?

- E o pior é que está atrasadíssima. Os humanos entram em dois minutos. Venha comigo.

- Eu morri. Que absurdo! Nunca imaginei que isso fosse acontecer logo comigo. Eu perdi a passagem do milênio. Como foi a passagem do milênio?

- Ah, foi uma maravilha. O mar se abriu, bolas de fogo... Os cavaleiros do apocalipse então, que beleza. Gostei mais da peste, toda verde.

- O mundo acabou?

- Você não sabia?

- Não, eu morri um pouco antes.

- Todo mundo avisou, o Pacco Rabane, Nostradamus. Olha aqui.

O anj tira um livro do bolso e lê:

- “Quando a terceira esfera azul brilhar no mar do norte, então será o dia”. Só não entendeu quem não quis.

- Todo mundo morreu à meia-noite?

- Não, você morreu um pouco antes. E mesmo assim, é a mais atrasada. Já vai começar.

- Começar o quê?

- Como assim, o quê?

O anjo empurra uma porta e Beth entra num grande Auditório lotado. Na platéia, seres humanos de várias épocas, princesas medievais, gregos de lençol, primatas peludos. No palco, entre nuvens, um luminoso informa o nome do show: “Juízo Final”. O anjo indica a Beth um lugar vago no auditório e sobe no palco, pega um microfone.

- Bem-vindos ao Juízo Final. Boa-noite, ou bom-dia, não importa: vocês agora vivem na eternidade. Está começando mais um sensacional julgamento, chegou a hora de prestar contas de tudo que se fez e tudo que se deixou de fazer. E o julgamento de hoje é...

O anjo examina uma ficha.

- Dos humanos!

Platéia vibra, aplaude, grita: Humanos! Humanos!

- Muito bem...a platéia está animada hoje. E agora vamos receber nosso juiz e patrocinador, aquele que tudo vê e tudo sabe, aquele que é o princípio, o fim e o meio. Uma salva de palmas para... Deus!

Um grande olho irradiando luz num triângulo surge sobre o palco. Acordes de um órgão. Palmas da platéia: De-us! De-us!

- É, podem aplaudir bastante, mas não pensem que isso vai influenciar o julgamento, não... Nosso juiz é implacável! Mas vamos ver quem será o representante da raça humana no Juízo Final.

O anjo mete a mão numa grande urna transparente, cheia de pequenos envelopes coloridos. Ela pega um envelope, abre.

- Vamos abrir o envelope... Atenção... dona Elisabeth!

Foco de luz em Beth, na platéia. Aplausos. Elisabeth! Elisabeth!

- Eu?

O anjo vem até a platéia e conduz Beth para o palco.

- É uma grande responsabilidade, representar a raça humana no Juízo Final... Está nervosa, dona Elisabeth?

- Um pouco... pode me chamar de Beth.

- Beth, muito bem. Sabe como são as regras do jogo?

- Não, não sei nada. Eu estava indo para a praia. Eu acho que não estou preparada.

- Modéstia a sua. A senhora sabe por exemplo em qual dinastia foi construída a muralha da China?

- Não sei, não tenho a mínima idéia.

- Brincadeira, isso não vale ponto. Fique calma, dona Beth.

No cenário surgem dois placares, céu e inferno, com um contador embaixo e uma ampulheta que marca o tempo.

- Dona Beth, as regras aqui são muito simples. Deus não faz qualquer distinção entre os seres que criou: amebas, árvores, baratas e seres humanos, todos têm a mesma importância. Como Deus não pode julgar individualmente todos os seres, escolhe, aleatoriamente, um representante de cada espécie. E a senhora foi escolhida para representar a raça humana.

- Olha, eu vi um japonês de óculos ali no fundo, será que não será melhor... É que eu trabalho, trabalhava, numa empresa de informática, eu tenho só um curso técnico...

- Não se preocupe, a platéia ajuda, a senhora vai se sair bem... Eu vou lembrar tudo que a raça humana fez de ruim e a senhora vai dizer o que vocês fizeram de bom. Deus vai dano os pontos que aparecem naquele placar. Se a senhora fizer mais pontos que eu, sabe para onde vocês vão?

A platéia grita: Para o céu! Para o céu!

- Exatamente. Para o céu! Um lugar maravilhoso, onde corre o leite e o mel, para quem gosta de leite e mel. Um lugar onde não há dor, nem mal, nem pecado. Uma eternidade de glória e felicidade!

A platéia grita: Para o céu! Para o céu!

- É, mas se a senhora perder, a situação da raça humana fica muito difícil, dona Beth... Se a senhora perder, os humanos vão passar a eternidade... no inferno!

A platéia geme: uuuh!

- O inferno é um péssimo lugar para passar um fim de semana, que dirá uma eternidade.

A ampulheta do cenário vira e começa a contar o tempo.

- Olha lá, hein, dona Beth, que o relógio já está marcando e... começou o jogo!

- Eu não sei, quero dizer, a raça humana fez muitas coisas, algumas boas, outras ruins.

O anjo abre um envelope com várias fichas.

- Lembre das boas, dona Beth, que das ruins lembro eu. Olha, e pelo que eu estou vendo, aqui... o jogo de hoje está fácil pra mim. A raça humana não fez um papel muito bonito, não. Raça humana... Vocês surgiram no finzinho do mundo, não faz nem dez milhões de anos, mas fizeram um estrago danado no planeta, hein, dona Beth? Os humanos merecem o inferno! Que raça bem triste... A começar pelas guerras, que coisa feia! Nunca houve guerras entre camelos, nunca se ouviu falar de um bando de cotias matando outras cotias. Acho que as guerras vão levar vocês todos para o inferno.

Placar do inferno marca 100.000 pontos.

- É verdade, mas nós fizemos muita coisa boa também.

- Por exemplo?

- Bom... O quindim.

- Quindim.

- É, um doce. Foi uma grande invenção. Eu adoro quindim.

- Vamos ver quantos pontos vale o quindim.

Placar do céu marca 3 pontos.

- Só três pontos, dona Beth. Além do quindim, o que mais vocês fizeram de bom?

- Pudim, rapadura, doce de leite.

Placar do céu avança para 12 pontos.

- Dona Beth, a senhora vai ter que lembrar de muitos doces para tirar a raça humana do inferno. Os humanos foram uma praga!

- E a roda? A roda é uma invenção ótima.

Placar do céu avança para 512 pontos.

- A Beth está pegando o jeito.

- Livros! Os livros!

Placar avança para 20.512 pontos. Platéia vibra: Livros! Livros!

- Acho bom eu não me descuidar... Vamos ver... Inveja, cobiça, ira, gula, avareza, luxúria...

O placar do inferno anda aos pulos, já está em 160.000.

- Está faltando um pecado...

- Preguiça?

Placar do inferno pula para 170.000. Beth e a platéia gemem: ai!

- Preguiça. Obrigado, dona Beth, a senhora me deu 10.000 pontos.

- Só um pouquinho. As pirâmides. Fio dental. Anestesia. Elevador, escada rolante, controle remoto. Navios. A agricultura. Roupas. Sapato. Rádio, televisão. Cinema. Teatro. Beth aponta para Deus.

- Aquela capela, que tem o desenho dele pondo o dedo num homem assim, uma que foi restaurada há pouco... Cristina?

A platéia assopra: Sistina!

- Isso! Capela Sistina!

O placar do céus vai para 86.512 pontos. O anjo consulta as fichas.

- E as drogas? E a pornografia infantil? E a má distribuição de renda? E os corruptos?

Inferno: 245.560

- Cadeiras. Tapetes. A nona sinfonia do Beethoven! A oitiva, a sétima, a quinta, quarta, terceira, segunda e primeira sinfonias de Beethoven?

Céu: 112.320.

- A décima sinfonia?

Luz vermelha pisca, toca alarme.

- Não tem décima sinfonia nenhuma, nosso juiz tudo sabe e tudo vê, dona Beth. E as mentiras? E as fofocas?

Inferno: 276.840.

- A música! Todas as músicas!

Céu: 280.320. A platéia vibra: Música! Música!

- O ciúme. A ganância.

Inferno: 310.630.

- Ganância é o mesmo que cobiça e avareza, já foi. Eu falei pudim?

- Já falou, lá no começo, logo depois do quindim.

- Computador. Videocassete. As pinturas. As conquistas espaciais. Todos os eletrodomésticos.

Céu: 290.780.

- Roubos!

- Zíper! Telefone!

- Linha ocupada.

Inferno: 340.020.

- Carinho, compaixão, simpatia, saudade!

Céu: 380.520. A platéia delira: Beth! Beth!

- Violência. Grosserias. Antipatia. Esquecimento.

Inferno: 410.200.

- Cartões de natal. Internet.

E um sem-fim de misérias e bondades humanas desfilou frente aos olhos que tudo vêem. O tempo, todos os tempos, chega ao fim. O placar Fo inferno marca 834.760. O placar do céu marca 834.730. Beth está nervosa, a platéia está nervosa.

- O tempo está acabando, faltam três minutos, dona Beth... Faltam trinta pontos para livrar a raça humana do inferno, dona Beth.

- Eu já falei lâmpada?

- Falou.

- Quindim?

- Foi a primeira coisa que a senhora disse.

Silêncio. A platéia está apreensiva, rói as unhas. Beth pega um lenço do bolso, seca o suor da testa e, ao guardar o lenço, percebe o livro de Sartre em seu bolso. Pega o livro. Lê.

- Olha isso aqui. “Vós que desconheceis as nossas dores, como podeis compreender o poder atroz de nossos amores mortais? Crianças lindas que saís de nós, nossas dores vos terão feito. Séculos que virão, eis pois o meu século. Solitário e disforme, o réu. Eu responderei por ele”.

A platéia se emociona, aplaude. O placar do céu pula para 834.765 pontos. A platéia vibra: Humanos! Humanos! Beth está radiante.

- Isso é do Sartre!

- Um ateu?

Silêncio. O placar do céu cai para 834.760, empatando com o do inferno. A platéia geme.

- Eu não sabia que ele era ateu. Eu nem li o livro todo, só essa parte, que estava sublinhada. O que acontece se der empate?

- Em caso de empate, a raça humana vai para o purgatório, onde aguardará novo julgamento, em um milhão de anos.

- Como é o purgatório?

- É um pouco como uma sala de espera, com gravuras na parede, revistas sem capa, plantas artificiais e música ambiente.

- Que tipo de música?

- New age.

- Cacete!

- Faltam cinqüenta segundos! Eu também não lembro mais nada de ruim... Acho que vocês vão todos para o purgatório.

- Eu falei abridor de lata?

- Falou.

- Fita durex?

- Falou. Faltam quarenta segundos. Olha o tempo!

- Bem... Tem uma coisa que eu fiz, mas não sei se vale. Vale bondade com raiva?

- Faltam trinta segundos!

A platéia grita: fala!

- Bom... o Josimar, um cara que trabalha comigo no escritório, não bem comigo, eu trabalho na contabilidade e ele no contas a pagar.

- Dez segundos!

A platéia urra: fala!

- Eu ajudei o Josimar com o computador. Eu estava atrasada para pegar o ônibus, mas atendi o telefone e ajudei o Josimar no computador. E a responsabilidade era dele. Ele ganha o mesmo que eu. Isso vale?

Silêncio. Expectativa da platéia. Beth olha para Deus. O placar do céu avança para um ponto: 834.761. Termina o tempo. Abre-se a porta do céu, tocam as trombetas.

- É o céu! Sensacional! A raça humana vai para o céu por um ponto! Parabéns, dona Beth!

A platéia delira, todos se abraçam. A torcida invade o palco, cantando: Olê, olá, a raça humana tá botando pra quebrar! Humanos! Humanos! Beth é carregada em triunfo, nos ombros de um viking. A platéia canta: Arcanjo! Arcanjo! Arcanjo e Querubim! Arruma outro anjo que este já chegou ao fim!

- Não percam na próxima semana, o julgamento das amebas.

A platéia canta: Um, dois, três, quatro, cinco, mil, queremos que as amebas vão pra puta que o pariu!

*Extraído de "Meu Tio Matou um Cara e outras Histórias", de Jorge Furtado.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nunca Pare de Tentar Amar

Nunca ouvi maior idiotice do que “não dependa dos outros para ser feliz”. Desde o berço que vivemos necessitando de cuidados, de atenção, de investimento de tempo e de amor. E isso principalmente quando se trata da família, onde ninguém consegue crescer sem fazer crescer ou se autodestruir sem levar os outros consigo. Ter uma vida saudável implica em formar relacionamentos saudáveis, e ter ao seu redor pessoas que apostam no seu valor e sentem um prazer genuíno em repartir momentos com você, porque lhe consideram especial. Felicidade da boa a gente não soma, a gente divide. E é um negócio que é tão complicado que é a operação matemática que a gente aprende por último, mas que vale muito a pena quando se aplica na vida.

Uma vez que é imprescindível ter alguém com quem contar, sempre, acho que, ao estipular para nós mesmos um nível de qualidade de vida, é muito mais importante escolher quem nós emprestamos a nossa confiança do que levar uma vida auto-centrada e egoísta, de muito mais “eus” do que de concessões. Ceder só é realmente difícil para quem ainda não está realmente preparado para um compromisso. Alguém que ainda é imaturo demais pra reconhecer como é gostoso aproveitar a vida o máximo deixando de perder um tempo que é tão fugaz com trivialidades... ou por outro lado, esse alguém, na verdade, tem plena convicção destas verdades e é frio o suficiente para colocar um relacionamento em segundo plano. Afinal, prosperidade vem com dedicação e esforços pautados em sacrifícios, e alguns, infelizmente, são imprescindíveis em ordem de prover o crescimento profissional.

O problema que realmente empaca nessa manutenção da felicidade é o “e se”. “E se eu nunca mais tiver alguém assim do meu lado de novo?”. “E se dessa vez é pra valer?”. “E se... eu já entreguei meu coração?”.

O tempo perdido sempre vai rechear o drama humano até o dia em que alguém descubra uma fórmula pra todos viverem pra sempre, de forma que, aproveitando da imortalidade, possam fazer e refazer a vida do jeito que quiserem. Mas enquanto é impossível se ver livre de critérios ambíguos como “perder” e “ganhar”, ou “dor” e “alegria”, sempre vai haver uma decisão a ser tomada que implica, por sorte, em amadurecimento, e, com a experiência, em novas formas de se evitar antigos tropeções.

O fundamental disso tudo, ou pelo menos eu espero que seja, é que, com essa madureza, nós deixamos pra trás muito do recato das nossas atitudes e percorremos com mais empolgação os caminhos que nos levam à felicidade, deixando para trás uma espécie de pudor moral que só servia pra aplacar a velocidade pra chegar naquilo que estampa um tremendo sorriso no rosto. E eu penso isso porque tem tanto velhinho que eu conheço com uma jovialidade que falta em tantos jovens, haha.

O fato é: destino é uma ponte que construímos para o coração um do outro. E sendo assim, nunca vou poder discordar de quem escolheu ser o mais feliz que puder até o momento em que o seu coração seja despedaçado...

...porque na hora em que catamos os cacos, temos a tremenda sensação de que, o passeio, valeu a pena. E que fomos inflamavelmente completos até onde deu. E for possível um recomeço, lá vamos nós de novo...

Nunca pare de tentar amar.