quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nunca Pare de Tentar Amar

Nunca ouvi maior idiotice do que “não dependa dos outros para ser feliz”. Desde o berço que vivemos necessitando de cuidados, de atenção, de investimento de tempo e de amor. E isso principalmente quando se trata da família, onde ninguém consegue crescer sem fazer crescer ou se autodestruir sem levar os outros consigo. Ter uma vida saudável implica em formar relacionamentos saudáveis, e ter ao seu redor pessoas que apostam no seu valor e sentem um prazer genuíno em repartir momentos com você, porque lhe consideram especial. Felicidade da boa a gente não soma, a gente divide. E é um negócio que é tão complicado que é a operação matemática que a gente aprende por último, mas que vale muito a pena quando se aplica na vida.

Uma vez que é imprescindível ter alguém com quem contar, sempre, acho que, ao estipular para nós mesmos um nível de qualidade de vida, é muito mais importante escolher quem nós emprestamos a nossa confiança do que levar uma vida auto-centrada e egoísta, de muito mais “eus” do que de concessões. Ceder só é realmente difícil para quem ainda não está realmente preparado para um compromisso. Alguém que ainda é imaturo demais pra reconhecer como é gostoso aproveitar a vida o máximo deixando de perder um tempo que é tão fugaz com trivialidades... ou por outro lado, esse alguém, na verdade, tem plena convicção destas verdades e é frio o suficiente para colocar um relacionamento em segundo plano. Afinal, prosperidade vem com dedicação e esforços pautados em sacrifícios, e alguns, infelizmente, são imprescindíveis em ordem de prover o crescimento profissional.

O problema que realmente empaca nessa manutenção da felicidade é o “e se”. “E se eu nunca mais tiver alguém assim do meu lado de novo?”. “E se dessa vez é pra valer?”. “E se... eu já entreguei meu coração?”.

O tempo perdido sempre vai rechear o drama humano até o dia em que alguém descubra uma fórmula pra todos viverem pra sempre, de forma que, aproveitando da imortalidade, possam fazer e refazer a vida do jeito que quiserem. Mas enquanto é impossível se ver livre de critérios ambíguos como “perder” e “ganhar”, ou “dor” e “alegria”, sempre vai haver uma decisão a ser tomada que implica, por sorte, em amadurecimento, e, com a experiência, em novas formas de se evitar antigos tropeções.

O fundamental disso tudo, ou pelo menos eu espero que seja, é que, com essa madureza, nós deixamos pra trás muito do recato das nossas atitudes e percorremos com mais empolgação os caminhos que nos levam à felicidade, deixando para trás uma espécie de pudor moral que só servia pra aplacar a velocidade pra chegar naquilo que estampa um tremendo sorriso no rosto. E eu penso isso porque tem tanto velhinho que eu conheço com uma jovialidade que falta em tantos jovens, haha.

O fato é: destino é uma ponte que construímos para o coração um do outro. E sendo assim, nunca vou poder discordar de quem escolheu ser o mais feliz que puder até o momento em que o seu coração seja despedaçado...

...porque na hora em que catamos os cacos, temos a tremenda sensação de que, o passeio, valeu a pena. E que fomos inflamavelmente completos até onde deu. E for possível um recomeço, lá vamos nós de novo...

Nunca pare de tentar amar.

2 comentários:

  1. "(...)porque na hora em que catamos os cacos, temos a tremenda sensação de que, o passeio, valeu a pena.
    (...) Nunca pare de tentar amar".

    O mais difícil depois da queda é encontrar o remédio certo, o que sicatrize mais rápido. Mas até esses mertiolates da vida, incolores e indolores.. não deixam nunca da mesma forma como era antes. Cada baque, uma marca. Ou vai dizer que ainda não temos joelhos as marcas dos tombos da infância?
    Bem assim é no amor. Cada queda, uma sicatriz.
    Mas, o importante é não desistir nas primeiras tentativas, e ir em frente.. cair, levantar, tentar novamente.

    As pessoas mais sábias que conheço, não desistiram aos 60.. e porque muitos jovens com 20 e tantos anos já entregam os pontos?.. é isso que não entendo..
    =]
    Eu amo seus textos, e sou obrigada a concordar..

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  2. Não sei se "Não dependa dos outros pra ser feliz" foi uma das frases mais distorcidas que eu já vi (assim como "Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei"),ou se na verdade, eu a distorci para criar meu próprio significado. E, nesse caso, eu vejo a frase não como uma ode ao "Eu, eu e eu", mas sim como algo do tipo "Não espere que os outros comecem por você, mas que você mesmo comece a fazer o que acha que deve". E, nesse caso, entra a questão de você querer dividir, compartilhar, comungar... pois, como você disse: "Desde o berço que vivemos necessitando de cuidados, de atenção, de investimento de tempo e de amor." Mas por que esperar que o outro comece a nos dar amor, se podemos começar dando amor a ele? E aí a relação vai se construindo com cada vez mais maturidade e novos laços vão se criando. Afinal, já dizia aquela frase, clichê, mas extremamente verdadeira: nenhum homem é uma ilha. E, pegando o título do seu texto e casando com minha interpretação da frase: não espere que o outro nunca pare de tentar amar; você mesmo nunca deve parar de tentar amar.
    Belas palavras, mestre Simões!

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